Vinho e Filosofia

“Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os livros.” (Pasteur)

Arquivo para Degustação

Vinhos – A Roda dos Aromas

Fazia algum tempo que não participava de um curso de vinhos. Mas hoje fui para este curso na Perini com ninguém menos que Vevé Bragança. Adoro a simplicidade da apreciação dele.

O bacana deste curso é a possibilidade de degustar os vinhos e comprar seus aromar com os aromas reais dispostos numa mesa. Muito legal sentir um aroma de geléia de goiaba numa taça e pode comparar de fato com a própria geléia num copinho. Educação olfativa. Para mim que sempre disse que meu olfato era uma farsa (ainda me pego sendo ludibriada por ele!) foi uma ótima experiência daquelas que vale a pena repetir!

E falando em degustação, não podia deixar de comentar os vinhos da noite:

Carta Vieja Pinot Noir 2004

Já havia experimentado o Cabernet Sauvignon da mesma safra. Vinho chileno, orgânico, corpo leve, taninos e acidez equilibradas. Por ser leve, não faz parte do hall dos meus prediletos. No tocante a aroma, meu nariz farsante só achou Geléia de Goiaba mesmo! :D

Gran Tarapacá Merlot Reserva 2006

Mais um chileno. Esse eu a-d-o-r-ei! No começo um aroma de coalhada, depois que se abriu, geléia pimenta vermelha. Corpo médio, boa acidez e aquele tanino educado que chega devagar e com sutilieza. Na boca um adocicado e muito redondo. Meu preferido da noite! E olhe que nem sou chegada em Merlot.

Frontera Concha Y Toro 2006

Mais um apreciável. Muito melhor que o Chardonnay que, por incrível que pareça, não gostei. Sou suspeitíssima quanto a vinhos chilenos ainda mais sendo Concha Y Toro. Neste consegui perceber mais aromas e comparar com a roda para me convencer: chocolate, pimenta e alguma fruta vermelha que dentre as expostas confesso que não descobri qual. Mas que era fruta vermelha, era! :D Bom corpo, boa acidez, taninos bons. Também um bom vinho!

Herdade do Pinheiro 2004

Um assemblage que já postei aqui, apesar deste último ter sido 2003. Português de Alantejo valeu a experimentação para validar os aromas. Desta vez percebi bastante frutas negras (maduras) e um aroma herbáceo. Para mim era menta. Meu parceiro de mesa parece que não concordou muito não! (risos)

Mas degustar vinhos e cursos deste tipo é isso aí! Uma oportunidade de descobrir coisas novas, experimentar, conhecer pessoas, reencontrar pessoas e chegar mais uma vez à conclusão de que “vinho bom é aquele que você gosta”. E nunca uma degustação de determinado vinho será igual a outra do mesmo vinho. Isso que os faz interessantes! ;)

Salton Volpi Cabernet Sauvignon 2005

Creio que que a própria vinícola dá as melhores informações sobre o vinho. Eu, particularmente, no quesito aromas, só senti: chocolate, carvalho, cedro, baunilha, menta e pimenta.

Um bom vinho nacional. Tive a aoportunidade nesta sexta-feira de participar de um evento de degustação na Varanda da Perini da Graça (que por sinal está lindíssima). Ambiente agradável, música maravilhosa, a presença de Vevé Bragança e a apresentação de vinhos da Salton. Evento recomendadíssimo para as sextas-feiras. É gratuito! ;)

Degustação de vinhos passo a passo

Quer descobrir se um vinho é encorpado, forte ou suave? Reconhecer sua a textura e bouquet ? Nosso expert somelier indicará os passos iniciais para entrar no mundo dos vinhos e transformar-se no rei (ou rainha) do saca-rolhas. Dicas básicas sobre a temperatura ideal, taças e a decantação.

Degustar vinho consiste em apreciar e decodificar a maior quantidade possível de sensações que esta bebida é capaz de nos causar. É importante levar em conta que o vinho não é feito para ser degustado e sim desfrutado, porque o ato de apenas “degustar” é absolutamente artificial e sem importância.
A distância que separa o “degustar” e o “desfrutar” é a mesma entre um bate-papo e um interrogatório judicial. Por falar em linguagem judicial, aconselho a todos a abordar o tema como se fosse um jogo e não como um juiz: o risco de você tomar o lugar do juiz é muito grande e segundo minha experiência, os resultados são sempre desaconselháveis e tremendamente chatos, a menos que esteja particularmente interessado em fazer um curso rápido em superficialidade e esnobismo.

Agora, se desvendar os mistérios do vinho como um jogo, a degustação nos permitirá refletir sobre os vinhos, conhecê-los melhor, e mais do que tudo, conhecer a nós mesmos. Porque todas as fases da degustação nos revelam verdades sobre o vinho, todas, até as mais sem sentido, nos revelam verdades a respeito de quem os formulou.

Então, vamos ao ponto: você está sozinho em frente a sua garrafa de vinho (ou várias) e quer que alguém o oriente na escolha. Espero poder ajudar.

Primeiros passos

Temperatura
Preste muita atenção à temperatura recomendada. Em muitos casos está indicada no rótulo da garrafa. Os tintos devem ser servidos entre 14 a 16º.C – quando são excepcionalmente descuidados. De 16 a 18º.C quando tiverem um pouco mais de corpo (a maioria dos vinhos do continente) e de 18 a 20ºC os mais encorpados.

Em todos os casos, a temperatura do vinho deve estar abaixo da temperatura ambiente. Muitas vezes, apenas alguns minutos de geladeira chegam à condição ideal. Para aqueles que não têm termômetros, tomem como base que uma bebida com 17º.C é bem “fresca”. Por exemplo, em minha geladeira doméstica, leva uns 30 minutos ou mais para que 750cm3 de vinho fique à esta temperatura em um dia nem muito frio e nem muito quente.

Para os vinhos brancos se recomenda que sejam servidos a uma temperatura entre 8 e 12º.C, seguindo um critério similar.

Em ambos os casos, um excesso de temperatura causará, entre outras coisas, a aceleração da vaporização do álcool, propiciando uma sensação pouco agradável (alcoólica e agressiva) em seu olfato. Ao contrário, as temperaturas demasiadamente baixas ocasionarão um “adormecer” dos aromas e sabores do vinho, neutralizando uma grande parte do trabalho realizado pelo enólogos.

Ah! É claro seria muito mais fácil pegar o vinho diretamente de uma adega onde temos uma temperatura constante e ideal. Acontece que se você tivesse em sua casa uma adega climatizada não estaria consultando esta matéria.

As taças
Por mais que a tendência de supervalorizar este tipo de utensílio me deixe muito nervoso, tenho que admitir que a taça é um ítem importante. Uma taça lisa, com uma silhueta de “tulipa” é adequada para a maioria dos casos. As taças para os vinhos tintos devem ser maiores que as utilizadas para vinhos brancos (contém um volume aproximado de meio litro) e as taças para as degustações profissionais são ainda menores que as anteriores.

Naturalmente, se contamos com alguns destes copos majestosos de cristal sem emenda, de borda lisa e fina (ao contrário daquelas reforçadas e grotescas taças de segunda linha) e com um pé fino, irrisório, a mesa automaticamente estará pronta para uma festa. Ao levantarmos e analisarmos, a sua fragilidade é até comovedora, é em si um início mágico para a degustação, mas de nenhuma maneira é essencial.

Por isto, voltemos à Terra: o fundamental é que o vidro seja liso e transparente, que o tamanho da taça, permita girar o vinhos por suas paredes comodamente, e quando possível, que a sua borda tenha a função de concentrar os aromas.

A decantação
É cada vez mais frequente nos restaurantes o uso de garrafas de cristal ou vidro transparente em que servem os vinhos substituindo as garrafas originais (principalmente os tintos). Algumas possuem um design maravilhoso, outros horríveis. O nome destes recipientes é “decanter”, como a famosa publicação britânica de vinhos. Em espanhol utilizam a palavra “decantador”, mas por algum motivo a forma inglesa é mais utilizada. Como seu nome já indica, utilizavam estas garrafas especiais para decantar os vinhos e evitar que as “sujeiras” de garrafas antigas chegassem às mesas e por conseqüência às taças.

Hoje em dia, em que não se tomam tantos vinhos antigos, e que as “sujeiras” não são freqüentes, se usa o decanter para favorecer o contato do vinho com o ar e assim favorecer a liberação de partículas voláteis (principalmente os tintos) . Se querem um pouco de gíria “snobbish”, o mesmo que “fazer respirar o vinho”, “que “faz oxigenar” o vinho.

Certamente este utensílio que deveria auxiliar, também têm seus inconvenientes. O primeiro é que possui uma verdadeira tendência a derrubar a última gota de vinho nas gravatas de mais de 200 dólares, nas golas dos ternos, nos vestidos das senhoras, por isto aconselho muita prudência e muito treinamento para não passar por estes vexames. O segundo é de ordem técnica. Ao ampliar a superfície de contato do vinho com o ar e com o recipiente em um dia de calor, o vinho passará em 3 minutos de 17º C ao, para os 29ºC do ambiente. O terceiro é que o se vinho é extremamente delicado, corre-se o risco de perder todo o seu aroma.

Para aqueles que não possuem decanter em casa, recomendo abrir o vinho (com no mínimo) duas horas de antecedência. Em todo caso, cabe ressaltar que o uso do decanter deve ser muito criterioso, e, da mesma forma que não utilizamos determinados utensílios só porque estão na cozinha, peço que evitem o uso do decanter só porque nosso chefe nos deu presente de Ano Novo.

Uma última consideração: em muitos anos de degustação profissional, jamais vi decantarem vinhos em um concurso.

Terra / Federico Fialayre